📜 História, Ciência esquecida
Dentre todas as áreas do conhecimento, a História é o campo da razão que trabalha com um objeto de estudo, um tanto quanto controverso e muito debatido, o passado. Como assim? O que torna esse objeto de estudo problemático? Vamos investigar a fundo essa disciplina que é rica e pode nos ligar a questões, tanto sobre nossa origem e como nossa sociedade chegou onde chegou.
Antes gostaria de aplicar a este texto uma informação: que os termos “história”, com “H” minúsculo, será utilizado para se referir a contos de fadas, uma informação ou conhecimentos em geral da sociedade; já “História”, com “H” maiúsculo, será a forma de tratar fatos e assuntos ou referências diretas à disciplina.
1.O que é história?
A história ou como já fora denominada em português, “Estória“, refere-se a contos, ficções, história em quadrinhos, informações, lendas e narrativas de cunho popular em geral.
Trata-se de histórias contadas, que podem ou não estarem inseridas em um fato histórico, ou se apropriar dos elementos culturais de um povo para ganhar forma narrativa.
2.O que é História?
Por outro lado a disciplina História, tem uma ideia mais “cientifica”. Sendo considerada uma ciência desde o século XIX, a História agora tratava de fatos que além de serem catalogados, também recebiam um certo cuidado em atribuir juízos de valor ao passado, ou seja, tornando um fato absoluto sobre o passado.
A necessidade de gerar métodos diferentes de estudo da História, possibilitou abandonar a velha maneira de ver o passado: remover o perigo de cair, no que chamamos de “anacronismo“
Sendo assim historiadores de diversas linhas de pensamento, produziram formas de estudarmos a História do mundo por meio da pesquisa por fontes históricas, que buscaria responder perguntas que no presente inquieta.
As diferentes forma de se enxergar a História, também influenciam em como essas perguntas serão respondidas. Nesse momento vamos verificar apenas três visões de mundo acerca dos fatos temporais: A Escola Positivista de Auguste Comte (1798-1857), a Escola Marxista de Karl Marx (1818-1883) e a Revista dos Annales de Lucien Febvre (1878-1956) e March Bloch (1886-1944).
2.1 Sem prova não vale…
Antes de prosseguir no assunto, vale lembrar que no estudo da História existe um campo de atuação chamado de de “Teoria da História”, onde fazemos a separação do termo “historiografia” do simples estudo da História. Como já fora anteriormente referenciado, “a História passa ser tratada como ciência a partir do século XIX”, isso porque a partir desta época o desenvolvimento do conhecimento chamado “científico” foi visto como uma necessidade de ser introduzido nesta matéria.
O conhecimento científico, previa que sua produção deveria seguir critérios anteriormente determinados para que haja resultados verificáveis e comprovados a partir do método que fosse utilizado para chegar a este resultado.
Uma das visões que se afeiçoam a essa visão com maestria é o Positivismo, mais precisamente o de Auguste Comte (1798-1857). Comte, fora um dos maiores sociólogos e filósofos franceses, sendo conhecido como fundador da disciplina da sociologia, mesmo que futuramente Émile Durkhein (1858-1917) seria chamado de “Pai da Sociologia”. Auguste Comte, é considerado o fundador do Positivismo.
O Positivismo de Comte defendia a tese de o conhecimento humano dependia de 4 estágios:
- Empírico: O saber que passa pelo estágio da experiência pessoal, das observações do mundo do cotidiano e tudo o que pode ser capturado facilmente pelos sentidos naturais. Exemplo: 2+2=4 e não da para questionar isso. (Pelo menos por observação ao olho natural).
- Teológico: O saber dedicado a explicar e fundamentar fenômenos sobrenaturais ou entidades da mesma procedência. Exemplo: A divindade trina de Deus.
- Filosófico: O saber que busca decifrar e traduzir abstrações percebidas na realidade, buscando a até mesmo em conceitos metafísico para explicar o mundo ao seu redor. Exemplo: a origem do bem e do mal, buscando definir o que é Ética.
- Científico ou Positivo: Na visão de Comte, também chamado de Positivo, é o conhecimento que necessita de observação, experimentação e comprovação, ou seja, se não passar por esses estágios não é possível ser um conhecimento positivo. Exemplo: “a história é feita com documentos” , ou seja, se não há documento não há história.
Nesse último se apoia toda a episteme (Opinião), do pensamento Positivista, onde os outros três pontos serviam com métodos de analise das fontes, que tinham de ser concretas e documentais. Relatos ou ideias que não gerasse transformação social, tornasse duvidosa ou subjetiva sobre o passado, tentando desviar o ouvinte de uma mudança. Isso não é História, é só hipóteses falhas do passado.
2.2 Respeita a galera
Dizer como as coisas realmente aconteceram
Leopold Von Ranke (1795- 1886)
Hoje acordamos e olhamos para a política do nosso tempo, com várias discussões de “direita e esquerda”, mas isso é algo teve em todo tempo. Ainda no século XIX, temos figuras que tinham suas ideias contrárias ao positivismo de Comte e Leopold von Ranke (1795-1886), era um deles.
Ranke, é chamado de “pai da História Científica”, fazendo parte do que é chamado de Historicismo que defendia que cada momento histórico existe um contexto, uma série de eventos único e que tratar como se todas os povos antigos, funcionassem da mesma maneira, seria um equivoco gigantesco.
O essa visão histórica defendia que cada personagem histórica, pertencia ao seu contexto e tinha suas ações formada por uma série de fatores que era única de seu tempo. O contexto dos eventos são importantes para não generalizar todos os tempos como se fossem idênticos ao presente.
2.3 Que vença o melhor…
O caminho do inferno, está pavimentado de boas intenções.
Karl Marx (1818-1883)
Entre as escolas Historiográficas surgidas no século XIX, a escola Marxista, foi (e ainda é) uma das principais ideias de ver História que mais influenciaria o pensamento de muitos intelectuais do século XX e XXI.
Tudo começou com as ideias de Karl Marx (1818-1883) e Fiedrich Engels (1820-1895), que a partir de vários escritos, tendo como o mais famoso “Tratado Comunista”(1848) e “O Capital”(1884). Mas o foco foi em sua forma de ver a História: o materialismo histórico e dialético, que entende que as estruturas econômicas determinam, em grande parte, a vida social, política e cultural das sociedades.
Aqui vão alguns pontos da ideia marxista:
- A Luta de Classes: Sendo a força motriz da História, do ponto de vista do Marxismo, que conflitos entre as classes sociais com interesses opostos. Ex: Senhor x servo. Opressor e oprimido.
- Materialismo Histórico/Dialético: Se a luta de classes é a força motriz da história, o que sustenta esse sistema, está baseado pelas condições materiais de produção. Podemos chamar isso também de economia. E que cada ponto da história foi sustentada por um modelo de produção: Ex: O capitalismo, ascendeu a partir da exploração dos meios de produção promovidos pela Burguesia.
- Análise Estrutural: A escola Marxista, busca entender as relações entre infraestrutura (Base econômica) e superestrutura (instituições políticas, jurídicas, religiosas e culturais). Exemplo: a religião cristã protestante, abriu as portas para o capitalismo sustentando as essa modalidade econômica, mantendo seus fiéis conservador sendo contra o progresso da sociedade.
- Progressismo: Segundo essa visão o progresso da sociedade não é harmônico, mas sim, uma série de conflitos, contradições. As mudanças só virão quando a classe oprimida se rebela contra o sistema, buscando chance em crises e revoluções que fortaleça sua causa de progresso. Exemplo: A ditadura do proletariado, que se revolta contra a sociedade burguesa que o oprime.
- História Social: Ênfase no estudo das classes sociais, movimentos sociais e trabalhadores (proletariado). Exemplo: relação entre classe alta e as formas de opressão da classe média, da classe burguesa em relação a classe trabalhadora.
A historiografia marxista entende a História como resultado das condições materiais e da luta de classes, destacando a importância da economia e dos conflitos sociais como motores das transformações históricas. Foi uma das correntes mais influentes do século XX e abriu espaço para o estudo da vida cotidiana, da cultura popular e das classes subalternas.
Ciência dos Homens
Os homens são mais parecidos com sua época, do que parecidos com os seus pais.
Marc Bloch (1866 -1944)
A História é uma ciência (já deve estar cansado de ler isso), mas uma ciência que estuda o que? Qual seu objeto de estudo? Quais são as suas ferramentas?
Essas são perguntas feitas por uma escola historiográfica, Escola dos Annales. Fundada na França, no século XX, pelos historiadores Marc Bloch (1864-1944) e Lucien Febvre (1878 – 1956) com a publicação da revista “Annales d’Histoire Économique et Sociale” em 1929. A revista trazia foco na crítica da História tradicional e também as ideias do positivismo, buscando uma interdisciplinaridade – principalmente com a geografia, a sociologia e a economia – entre outras áreas com o intuito de fortalecer o estudo da História e o estudo do passado humano.
Os Annales, são divididos em 4 gerações:
- 1ª geração (1929-1945) – Fundação e Ruptura: a partir de discordâncias com positivismo, Marc Bloch e Lucien Febvre fundaram a revista Annales d’histoire économique et sociale em Estrasburgo. Propuseram uma história problema em oposição à narrativa de fatos isolados. A interdisciplinaridade — diálogo com a geografia, a sociologia e a economia — tornou-se marca registrada. A história total, que buscava apreender todas as dimensões da vida humana, era o ideal. Intelectuais principais: Marc Bloch e Lucien Febvre.
- 2ª geração (1945-1969) – A Era Braudel e a Longa Duração: Fernand Braudel dominou este período com sua concepção de múltiplos tempos históricos. A longue durée (longa duração) priorizava as estruturas geográficas e econômicas quase imóveis em detrimento dos eventos de curta duração. A história econômica e quantitativa ganhou centralidade, e os Annales tornaram-se a escola historiográfica mais influente do mundo ocidental. Intelectuais principais: Fernand Braudel, Ernest Labrousse e Charles Morazé.
- 3ª geração (1969-1989) – A História das Mentalidades: Após maio de 1968, os Annales se fragmentaram em múltiplos objetos e abordagens. A histoire des mentalités explorou atitudes coletivas inconscientes: a morte, o medo, o amor, o corpo. A antropologia histórica de Le Goff e a história serial de Furet ampliaram as fronteiras da disciplina. Surgiu a chamada Nouvelle Histoire como manifesto dessa diversificação. Intelectuais principais: Jacques Le Goff, Emmanuel Le Roy Ladurie, Pierre Nora, François Furet e Philippe Ariès.
- 4ª geração (1989 – presente) – A Micro-história e o Giro Cultural: Com a crise das grandes narrativas, os Annales se voltaram para escalas menores (microanálise) e para a história cultural. O diálogo com os estudos culturais anglófonos, a virada linguística e a história da memória marcaram este período. Questões como identidade, gênero e representação ganharam espaço. A hegemonia da escola começou a ser disputada por correntes como a História Cultural e a Micro-história italiana. Intelectuais principais: Roger Chartier, Bernard Lepetit e Jacques Revel.
A ideia principal derivava da necessidade de analisar o Ser humano e como ele se desenvolveu ao decorrer da História. Tais contribuições duradouras da escola para a historiografia mundial, incluindo sua influência no Brasil, e as principais objeções levantadas por críticos (negligência da política, eurocentrismo, vagueza conceitual).
Conclusão
Todas as ciências têm formas diferentes de serem analisadas, a História esta longe de ser uma exceção, porém vivemos dias em que há grandes debates sobre a pluralidade de ideias, em muitos casos, é deixada de lado para ser defendido uma virtude que todos acreditam buscar.
Logo, não há um estudo focado na transformação de seres humanos ou abandono de práticas nocivas ao decorrer da História, mas esta fora transformada em política. Respeitando apenas o ponto de vista de quem almeja o poder.
Entender cada ponto, pode te livrar dessa manipulação. Aqui você teve um resumo de cada, para ter um norte por onde começar suas buscas.
Fica comigo nessa imersão, haverá mais análises e estudos nesse sentido, porque aqui na Logos Histórico, a História não é sobre datas. É sobre identidade, porque História é Identidade.

